Música Catirina, por Jararaca, João Pernambuco e o violonista, que daria voz ao Zé Carioca; Conheça agora

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A música Catirina atua no limiar entre a tradição oral dos cantadores e a indústria fonográfica nascente, “Catirina” revela um encontro histórico entre dois gigantes nordestinos e um multi-instrumentista que viria a se tornar a voz do Zé Carioca. Uma raridade de 1930, agora apresentada para o público pelo pesquisador e jornalista Sandro Barros, no projeto Balaio Brasil.

Há 95 anos, em 29 de janeiro de 1930, um trio formado por um pernambucano autodidata, um alagoano ex-cangaceiro e um paulista multi-instrumentista se reunia nos estúdios da Columbia, no Rio de Janeiro, para eternizar em goma-laca aquela que seria uma das primeiras aparições fonográficas de um personagem mítico do imaginário nordestino: Catirina.

A toada homônima, composta por João Pernambuco (1883-1947) e interpretada por Jararaca (1896-1977) com acompanhamento do violonista Zezinho (1904-1987), foi lançada em março de 1930 no disco Columbia nº 5.172-B, tendo no lado A a embolada “Meu Noivado”, também de João Pernambuco . Mais que uma simples gravação, “Catirina” é um documento sonoro que captura o momento em que a cultura popular do Nordeste deixava as rodas de violeiros e ganhava o formato industrial do disco de 78 RPM, perpetuando-se para as futuras gerações.

O Pesquisador e Músico, Sandro Barros, se dedica há 25 anos às culturas tradicionais pernambucanas, acaba de lançar o quarto episódio de sua série Balaio Brasil em seu canal Diáspora Brasil, mergulhamos fundo na história por trás dessa gravação. O resultado é uma reportagem que costura biografias, contextos históricos e a força de uma personagem que, décadas depois, ainda ecoa no Bumba-meu-boi e no Cavalo Marinho.

Ouça aqui a gravação original de “Catirina” – 1929, atualmente a obra está em domínio público


🔗 Ouça os dois primeiros episódios da Série Balaio Brasil

▶️ Ep. 01 – Coco Cadê Minha Pomba Rola | Elsie Houston  https://www.youtube.com/watch?v=qfbSOXKJ6yM&list=PLdCTKSN3CrPbW8ZUfdORjKkCV1pfg-OZD&index=5

▶️ Ep. 02 – Coco Jurupanã | Elsie Houston  https://www.youtube.com/watch?v=Y64p85frLT8&list=PLdCTKSN3CrPbW8ZUfdORjKkCV1pfg-OZD&index=3

 ▶️ Ep. 03 – Embolada ABC | Jararaca e João Pernambuco – https://www.youtube.com/watch?v=o1bTkeHa1m0&list=PLdCTKSN3CrPbW8ZUfdORjKkCV1pfg-OZD&index=2

🎸 João Pernambuco: O Pernambucano que se fez violão no Rio de Janeiro

João Teixeira Guimarães nasceu em 2 de novembro de 1883, no povoado de Bebedouro do Jatobá, às margens do Rio São Francisco, em Pernambuco . Hoje, a região é submersa pela Usina Hidrelétrica de Luiz Gonzaga, ironicamente batizada com o nome do “Rei do Baião”, conterrâneo de João. O povoado onde João nasceu, rebatizado Petrolândia em 1943, viu o menino crescer em meio a violeiros como Bem-te-vi, Mandapolão e o cego Sinfrônio, que lhe ensinaram as primeiras notas .

toada catirina de joão pernambuco diáspora brasil
joão pernambuco diáspora brasil

Aos 21 anos, em 1904, João migrou para o Rio de Janeiro, onde trabalhou como ferreiro na Fundição Indígena da família Guinle e, mais tarde, como calceteiro da Prefeitura, ajudando a construir as calçadas da então Capital Federal . Foi em uma pensão na Rua do Riachuelo, na Lapa, que sua vida mudaria para sempre. No local, dividia moradia com dois jovens que se tornariam monumentos da música brasileira: Pixinguinha e Donga .

Nas rodas de choro que frequentava, João conheceu o poeta maranhense Catulo da Paixão Cearense, com quem estabeleceria uma parceria controversa. Catulo ouvia as melodias que João trazia do sertão e sobre elas escrevia versos. O caso mais célebre é o de “Luar do Sertão” — originalmente um coco intitulado “Engenho de Humaitá” — que por décadas foi creditada apenas a Catulo, até que uma batalha judicial póstuma reconhecesse João Pernambuco como coautor .

Em depoimento ao Museu da Imagem e do Som (MIS) nos anos 1960, Pixinguinha foi categórico: “Eu ouvi o João Pernambuco cantar ‘Luar do sertão’ e ‘Cabocla de Caxangá’ antes de o Catulo colocar as letras” . A declaração do amigo e parceiro evidencia o papel de João não apenas como violonista, mas como verdadeiro arquivo vivo da cultura nordestina.

Em 1930, João Pernambuco registrou o melhor de sua obra violonística. Entre os dias 27 e 29 de janeiro daquele ano, ele gravou para a Columbia uma série de cinco discos com dez músicas, todas com o acompanhamento refinado de Zezinho . O repertório incluía choros (“Pó de Mico”, “Magoado”, “Reboliço”), valsas (“Sonho de Magia”), um fox-trot (“Rosa Carioca”) e o jongo “Interrogando”, além da toada “Catirina” e da embolada “Meu Noivado” . Era a consagração de um artista que, analfabeto, mas dono de uma cultura popular ímpar, se tornaria referência para gerações de violonistas — de Dilermando Reis a Yamandu Costa, passando por Raphael Rabello e Baden Powell .


Jararaca: O canto que veio de Alagoas para o Mundo

Se João Pernambuco trazia no violão a alma do sertão, Jararaca trazia na voz a aspereza e a malícia do Nordeste. José Luiz Rodrigues Calazans nasceu em Maceió, em 29 de setembro de 1896 . Aos 8 anos ganhou uma viola do pai, o poeta e professor Ernesto Nhonhô, e desde cedo absorveu as histórias dos boiadeiros que chegavam de Minas Gerais, com seus causos de cangaceiros, reisados e valentias.

música catirina interpretada jararaca cantor alagoano diáspora brasil
Jararaca cantor e compositor alagoano

Foi em 1919, na casa de Filinto de Moraes, que José Luiz conheceu Severino Rangel, o Ratinho. Juntos, formaram o grupo “Os Boêmios”, que depois se tornaria “Os Turunas Pernambucanos”, onde cada integrante adotou um nome de animal. José Luiz escolheu Jararaca . O grupo chegou ao Rio de Janeiro em abril de 1922, a tempo de participar das comemorações do Centenário da Independência. Apresentaram-se no Cine Teatro Beira-Mar, vestidos com trajes simples e chapéu de cangaceiro, e foram aplaudidos de pé pelo próprio presidente Epitácio Pessoa .

Jararaca, ao contrário de muitos intérpretes da época que tinham seus sotaques “corrigidos” nos estúdios cariocas, fez questão de manter a pronúncia nordestina — uma escolha estética e política que confere autenticidade única a gravações como “Catirina”. Ao ouvir sua voz, quase um século depois, ainda é possível sentir o eco do sertão.

Ouça também Embolada ABC de Domínio Público cantado por Jararaca na parceria com João Pernambuco, gravado em 1930, no Rio de Janeiro, pela gravadora Columbia


Zezinho: O paulista que (também) se chamava Zé Carioca

Completando o trio, está José do Patrocínio Oliveira, o Zezinho. Nascido em Jundiaí, São Paulo, em 11 de fevereiro de 1904, era um multi-instrumentista completo: violão, cavaquinho, banjo — dominava todos . Filho de um funcionário do Instituto Butantã, começou a carreira ainda jovem, participando de concursos e audições na capital paulista.

Zezinho - violonista da música catirina, homem que deu voz a  Zé Carioca Diáspora Brasil
Zezinho – Violonista e Zé Carioca

Em 1928, foi convidado por Américo Jacomino, o Canhoto, para integrar uma orquestra típica de 50 músicos na Exposição Anual da General Motors, no Cine Odeon, em São Paulo. Na mesma orquestra estava um menino franzino de 13 anos, Aníbal Augusto Sardinha, que viria a ser conhecido como Garoto .

A parceria com João Pernambuco começou em setembro de 1929, quando Zezinho acompanhou a cantora Stefana de Macedo em duas composições do mestre pernambucano: a toada “Vancê” e o coco “Tiá de Junqueira” . Em 27 de janeiro de 1930, dois dias antes da gravação de “Catirina”, Zezinho estava ao lado de João Pernambuco no estúdio para registrar a série de cinco discos que se tornariam seminais para a história do violão brasileiro .

Ouvindo essas gravações, como observa o pesquisador Jorge Carvalho de Mello, “pode-se perceber com clareza os grandes recursos de acompanhamento que Zezinho possuía – o que lhe permitia fazer uma linha de baixo com muito bom gosto, como no choro Magoado e, principalmente, em Interrogando” . Sua fluência na linguagem do choro era notável.

Anos depois, Zezinho se juntaria ao Bando da Lua, grupo que acompanhou Carmen Miranda em sua carreira nos Estados Unidos. Foi lá que sua vida ganhou um capítulo inusitado: Walt Disney, encantado com o Brasil e com a música brasileira, criou um personagem para ser o “embaixador” da cultura do país. Para dar voz ao papagaio Zé Carioca, nada mais natural que convidar Zezinho, que se tornou, assim, mundialmente famoso . O mesmo violonista que, em 1930, dedilhava com delicadeza as cordas para embalar os versos de “Catirina”, décadas depois encantava o mundo com o sotaque e o humor do personagem Disney.


👑 Catirina: A mulher que queria a língua do boi

E sobre o que canta “Catirina”? A letra, de domínio público, entrelaça versos de amor e humor com a estrutura típica da embolada e da toada. Mas o nome Catirina carrega um peso simbólico imenso no imaginário nordestino. Ela é uma figura central do Bumba-meu-boi, drama popular que encena a morte e ressurreição de um boi.

catirina diáspora brasil
Personagem Catirina – Foto: Adriano Lima

Na trama, Catirina é a mulher do vaqueiro Pai Francisco (ou Chico). Grávida, ela sente um desejo incontrolável de comer a língua do boi mais bonito da fazenda do patrão. Para satisfazer a mulher, Pai Francisco mata o boi, desencadeando todo o conflito da história. O patrão, furioso, manda prender o vaqueiro, mas, no final, graças à ação de pajés e curandeiros, o boi ressuscita, e todos são perdoados [conteúdo do vídeo].

A presença de Catirina no cancioneiro popular, já nos anos 1930, é a prova de como a tradição oral se infiltrava na indústria fonográfica nascente. A Catirina de João Pernambuco e Jararaca é, provavelmente, uma das primeiras vezes que essa personagem mítica ganhou voz em disco.

A letra da gravação de 1930, transcrita por Sandro Barros com a paciência de quem ouve, anota e pesquisa cada ruído e cada sílaba, revela um diálogo amoroso repleto de metáforas sertanejas:

Letra da Música – CATIRINA por Jararaca, João Pernambuco e Zezinho

A estrada que tu mora, todo dia passo nela

 Somente para te ver, sentadinha na janela 

Refrão 

Catirina, cadê teus anelão?

Alfinete de Pés, no correntão

Catirina, cadê teus anelão?

Alfinete de Pés, no correntão

Do soldado sem ter praça, no batalhão do amor 

Ainda não jurei bandeira, já me chamam desertor

Catirina, cadê teus anelão?

Alfinete de Pés, no correntão

Catirina, cadê teus anelão?

Alfinete de Pés, no correntão

Juramento tinha feito, não pretendo mais quebrar 

Enquanto Deus me der vida, outra eu não hei de amar 

Catirina, cadê teus anelão?

Alfinete de Pés, no correntão

Catirina, cadê teus anelão?

Alfinete de Pés, no correntão

A mulher que quer negar, quer ofender o seu amor  

junta, dedo com dedo, jurar por nosso senhor 

Catirina, cadê teus anelão?

Alfinete de Pés, no correntão

Catirina, cadê teus anelão?

Alfinete de Pés, no correntão

Se tu fosse pé de pau, eu queria ser cipó,

Vivia se enroscado, no teu corpo dando nó 

Catirina, cadê teus anelão?

Alfinete de Pés, no correntão

Catirina, cadê teus anelão?

Alfinete de Pés, no correntão

Se o zóio fosse alfinete, que nem  desse alfinetada 

Tu vivia furadinha, que nem renda na almofada

Catirina, cadê teus anelão?

Alfinete de Pés, no correntão

Catirina, cadê teus anelão?

Alfinete de Pés, no correntão

Um laço de fita verde com três dedos de largura 

As ancas de uma mulata mata qualquer criatura

Catirina, cadê teus anelão?

Alfinete de Pés, no correntão

Catirina, cadê teus anelão?

Alfinete de Pés, no correntão

Catirina, cadê teus anelão…


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1.Em nossa rotina de produção do Conteúdo envolve um grande tempo e esforço dedicados para na audição e CURADORIA das músicas;

2. Emprego de muito tempo na audição das letras, que por serem antigas, não são encontradas na Internet, soma-se as dificuldades com ruídos das gravações e palavras, gírias e termos populares da época. Existe uma eminente chance de interpretação errônea de algumas palavras;

3. Realização Transcrição da Letra e disponibilizar na legenda dos vídeos e na descrição do vídeo de cada Episódio (Música);

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